Eletrônica industrial
Inversor de frequência com defeito: os 10 sintomas, o que cada um indica, o código que costuma aparecer e o teste que separa máquina de inversor
Todo inversor de frequência conta o que tem pelo sintoma antes de contar pelo código. Este guia organiza os dez sintomas que chegam ao laboratório da Fixtron, do mais frequente ao mais raro, e para cada um responde quatro coisas: qual bloco do inversor está envolvido, qual código costuma aparecer em três famílias comuns (WEG CFW500, Schneider Altivar 312 e Siemens Micromaster 440, conforme os manuais oficiais), qual teste de campo separa um defeito da máquina de um defeito do inversor, e qual artigo aprofunda o caso. A ideia é que você chegue ao orçamento sabendo o que tem, e não enviando um inversor bom porque o motor estava em curto.

Como usar este guia
Um inversor de frequência tem cinco blocos: retificador e barramento CC (entrada), módulo de potência com IGBTs (saída), driver (entre o controle e os IGBTs), fonte auxiliar (alimenta tudo) e controle (processador, IHM, entradas e saídas, comunicação). Cada sintoma abaixo aponta para um ou dois desses blocos, e o teste de campo indicado diz se o problema está mesmo no inversor ou na máquina em volta (rede, motor, cabo, carga, painel). Os códigos citados são os dos manuais oficiais do WEG CFW500, do Schneider Altivar 312 e do Siemens Micromaster 440; outras famílias usam números diferentes para o mesmo evento, e o guia de códigos por marca faz a tradução. Regra geral que vale para os dez: leia o código, anote, faça o teste de campo, e só então decida entre ajustar no local e enviar para bancada. Resetar repetidamente não é teste, é desgaste.
1. Não liga, display apagado
O que indica. Falta de alimentação, fusível ou varistor de entrada abertos, retificador em curto ou, no caso mais comum, fonte auxiliar interna com defeito. Em inversores com IHM destacável, pode ser só o cabo ou a própria IHM. Código. Nenhum: sem fonte, não há display para mostrar. Teste de campo. Meça a tensão de entrada nas três fases (R, S, T) com o disjuntor ligado; confira o LED de carga do barramento CC, se houver; cheire a grade de ventilação; se existe IHM remota, troque-a por uma conhecida ou conecte a IHM local. Entrada presente, barramento carregado e display apagado é fonte auxiliar ou controle, defeito interno. Entrada presente e barramento sem carga é retificador, fusível interno ou pré-carga. Aprofunde em inversor não liga: 7 causas e display apagado: fonte auxiliar.
2. Sobrecorrente ou curto na partida
O que indica. O sintoma com mais causas externas e, ao mesmo tempo, o que mais mata módulo de potência quando é interno. Externo: motor com isolação ruim, cabo longo ou danificado, curto entre fases na caixa de ligação, carga travada, rampa de aceleração curta demais, parâmetros de motor errados. Interno: IGBT em curto, driver com resistor de gate aberto, sensor de corrente com desvio. Código. CFW500 F0070 (sobrecorrente ou curto-circuito entre fases de saída); Altivar 312 OCF (sobrecorrente) e SCF (curto-circuito do motor); Micromaster 440 F0001 (sobrecorrente). Teste de campo. Desligue, aguarde a descarga do barramento, desconecte U, V e W, e dê partida com referência baixa. Se o inversor roda sem erro com a saída vazia, o problema é motor, cabo ou carga: meça a isolação do motor e do cabo com megômetro (500 V ou 1 kV, conforme o manual) e a resistência entre fases. Se desarma mesmo sem motor, é interno: não insista. Aprofunde em inversor desarma na partida e como testar IGBT.
3. Sobretensão no barramento
O que indica. O barramento CC subiu além do limite. Quase sempre é energia voltando do motor: desaceleração curta demais, carga com inércia alta (ventilador grande, centrífuga, esteira em descida), ou rede alta na entrada. Interno: resistor de frenagem aberto, transistor de frenagem (chopper) com defeito, medição do barramento com desvio. Código. CFW500 F0022 (sobretensão no barramento CC); Altivar 312 ObF (sobrefrenagem, sobretensão do barramento) e OSF (sobretensão da rede); Micromaster 440 F0002 (sobretensão). Teste de campo. Veja em que momento ocorre: ao desacelerar é regeneração (alongue a rampa ou revise resistor e chopper); em regime ou parado é rede alta (meça a tensão de entrada nos três horários do dia) ou medição interna. Meça a resistência do resistor de frenagem frio e compare com a placa de identificação. Aprofunde em resistência de frenagem: função, falhas e reparo.
4. Subtensão e falha de pré-carga
O que indica. O barramento não chega ou não se mantém na tensão de trabalho. Externo: rede fraca, falta de uma fase, cabo de alimentação subdimensionado, contator de entrada com contato ruim, muitos equipamentos partindo juntos. Interno: capacitores do barramento secos, resistor ou relé de pré-carga com defeito, retificador com um diodo aberto, fonte auxiliar medindo errado. Código. CFW500 F0021 (subtensão no barramento CC); Altivar 312 USF (subtensão), PHF (perda de fase da rede) e CrF (falha de pré-carga do capacitor); Micromaster 440 F0003 (subtensão). Teste de campo. Meça as três fases de entrada sob carga, não só em vazio; verifique aperto e aquecimento dos bornes de entrada e do contator; observe se a falha coincide com a partida de outro equipamento. Rede boa e subtensão persistente, ou falha de pré-carga, é bancada. Aprofunde em capacitores do barramento CC, circuito de pré-carga e inversor parou após queda de energia.
5. Superaquecimento
O que indica. O dissipador ou o módulo passou da temperatura limite. Externo: ventilador do inversor travado ou lento, filtro do painel entupido, painel sem ventilação ou ao sol, ambiente acima do especificado, inversor subdimensionado para a carga, frequência de chaveamento alta demais. Interno: sensor de temperatura com desvio (alarme com dissipador frio), pasta térmica ressecada entre módulo e dissipador, ventilador com rolamento gasto, fonte do ventilador. Código. CFW500 F0051 (sobretemperatura nos IGBTs) e F0048 (sobrecarga nos IGBTs); Altivar 312 OHF (sobreaquecimento do inversor); Micromaster 440 F0004 (sobretemperatura do inversor) e F0005 (I²t do inversor). Teste de campo. Toque o dissipador (com o inversor desligado e descarregado) logo após a falha: quente demais para a mão confirma aquecimento real; morno com alarme indica sensor ou leitura. Veja o ventilador girar ao ligar; limpe filtros e aletas com ar seco. Reduza a frequência de chaveamento se o manual permitir. Aprofunde em inversor superaquecendo: 7 causas.
6. Sobrecarga do motor
O que indica. A corrente ficou acima da nominal do motor por tempo suficiente para a proteção térmica atuar. Externo (a imensa maioria): carga mecânica maior que o projeto (rolamento travando, correia apertada, produto acumulado), motor com enrolamento em processo de falha, corrente nominal do motor parametrizada abaixo da real, tensão de rede baixa forçando corrente alta. Interno: sensor de corrente com desvio, lendo mais do que passa. Código. CFW500 F0072 (sobrecarga no motor) e alarme A0046; Altivar 312 OLF (sobrecarga do motor); Micromaster 440 F0011 (sobretemperatura do motor, I²t). Teste de campo. Compare a corrente mostrada pelo inversor com um alicate amperímetro nas três fases do motor: se batem e estão acima da placa do motor, o problema é mecânico ou do motor; se o inversor mostra muito mais que o alicate, a medição interna está errada. Gire o eixo desacoplado à mão. Aprofunde em como saber se o motor queimou e CFW500 F0072 e A0046.
7. Falta à terra
O que indica. Corrente escapando de uma fase de saída para o terra. Externo: isolação do motor comprometida por umidade ou envelhecimento, cabo de saída com isolação ferida, caixa de ligação com água, cabo muito longo sem reatância de saída. Interno: IGBT com fuga, sensores de corrente desbalanceados, trilha com fuga por sujeira ou umidade na placa de potência. Código. CFW500 F0074 (falta à terra: sobrecorrente de fase para o PE, diferente do F0070, que é entre fases); Altivar 312 reporta como SCF (curto-circuito do motor, incluindo para a terra). Teste de campo. Megômetro no motor e no cabo, separadamente, contra a carcaça e o terra; qualquer leitura abaixo do que o fabricante do motor especifica (em geral dezenas de megaohms para motor seco) explica a falha. Com motor e cabo bons, e falha persistindo com a saída desconectada, é interno. Aprofunde em CFW500 F0070 e F0074.
8. Desliga sozinho, reseta, falha intermitente
O que indica. O sintoma que mais consome tempo e que menos aparece em bancada no primeiro teste. Externo: bornes de comando frouxos, contato de habilitação (enable, stop) oscilando, cabo de comunicação com ruído ou sem terminação, 24 V do painel caindo com carga, condensação de manhã, vibração. Interno: fonte auxiliar com capacitor seco (reset quando a carga sobe), solda trincada em conector ou componente pesado, placa com umidade ou fuga, módulo plug-in de comunicação com mau contato. Código. Variado, e muitas vezes nenhum: o histórico de falhas da IHM mostra sequência de eventos diferentes. CFW500 F0031 (falha de comunicação com o módulo plug-in); Micromaster 440 F0070, F0071 e F0072 (perda de referência pela comunicação) e F0085 (falha externa pela entrada digital). Teste de campo. Leia o histórico de falhas antes de resetar; reaperte todos os bornes de comando; meça os 24 V do painel durante a falha; observe horário e condição (manhã, após lavagem, com outra máquina ligando). Se a falha some com o inversor morno e volta frio, ou vice-versa, registre, porque esse padrão orienta a bancada. Aprofunde em inversor liga e desliga sozinho, falha depois de aquecer e placa com umidade.
9. Display estranho, parâmetros perdidos, não aceita comando
O que indica. Bloco de controle: processador, memória de parâmetros, IHM e seu cabo, entradas digitais e analógicas. Externo: IHM remota com cabo danificado, entrada analógica recebendo tensão errada (24 V em entrada de 10 V), parâmetro de origem de comando apontando para rede quando o comando é local, bloqueio por senha. Interno: memória com falha de gravação, regulador do controle degradado, transceptor de comunicação queimado por surto no cabo de rede, bateria de retenção (em modelos que a usam). Código. Altivar 312 EEF (falha de memória EEPROM), CFF (configuração incorreta) e LFF (perda da referência 4-20 mA); Micromaster 440 F0080 (perda do sinal da entrada analógica). Teste de campo. Troque a IHM ou o cabo por um conhecido; confira o parâmetro de origem de comando e referência; meça o sinal na entrada analógica; faça um ciclo de desliga e liga e veja se os parâmetros voltam ao padrão de fábrica (memória) ou se mantêm (configuração). Parâmetros que somem a cada desligamento são bancada. Aprofunde em como consultar o código no manual e display do inversor: o que relatar.
10. Motor vibra, perde torque ou gira errado
O que indica. A saída do inversor não está entregando as três fases equilibradas, ou o controle não sabe o que o motor é. Externo: fase de saída aberta no cabo ou no borne, sequência de fases trocada, parâmetros do motor errados (tensão, corrente, frequência, rotação nominal), autoajuste nunca feito ou feito com o motor acoplado, referência analógica ruidosa, motor com uma bobina em falha. Interno: um braço do módulo de potência aberto, driver de uma fase morto, sensor de corrente de uma fase com desvio. Código. Altivar 312 OPF (perda de fase do motor) e tnF (falha no autoajuste); CFW500 F0033 (falha no autoajuste). Muitas vezes não há código: o motor só vibra e aquece. Teste de campo. Meça a corrente nas três fases de saída com alicate: desequilíbrio acima de 10% entre fases, com motor bom, aponta para saída do inversor ou cabo; meça a resistência entre fases do motor desconectado (as três iguais); refaça o autoajuste com o motor desacoplado; inverta duas fases se o sentido está errado. Fase faltando com cabo bom é módulo ou driver. Aprofunde em como funciona um inversor de frequência e motor elétrico queimado: o que fazer.
Tabela resumo
| Sintoma | Bloco provável | CFW500 / ATV312 / MM440 | Teste de campo decisivo |
|---|---|---|---|
| 1. Não liga, display apagado | Fonte auxiliar, entrada | sem código | Entrada e barramento presentes, display apagado |
| 2. Sobrecorrente ou curto na partida | Potência, driver ou motor/cabo | F0070 / OCF, SCF / F0001 | Partida com U, V, W desconectados |
| 3. Sobretensão no barramento | Frenagem, rede | F0022 / ObF, OSF / F0002 | Momento da falha: desacelerando ou em regime |
| 4. Subtensão, pré-carga | Entrada, capacitores, pré-carga | F0021 / USF, PHF, CrF / F0003 | Três fases sob carga; bornes e contator |
| 5. Superaquecimento | Ventilação, módulo, sensor | F0051, F0048 / OHF / F0004, F0005 | Dissipador quente de verdade ou só alarme |
| 6. Sobrecarga do motor | Carga, motor, parâmetro | F0072, A0046 / OLF / F0011 | Alicate amperímetro versus leitura do inversor |
| 7. Falta à terra | Isolação motor/cabo, potência | F0074 / SCF / – | Megômetro no motor e no cabo |
| 8. Desliga sozinho, intermitente | Comando, fonte, conexões, umidade | F0031 / – / F0070-72, F0085 | Histórico de falhas; 24 V durante a falha |
| 9. Display, parâmetros, comando | Controle, IHM, entradas | – / EEF, CFF, LFF / F0080 | IHM e cabo conhecidos; parâmetros após desligar |
| 10. Motor vibra, torque, sentido | Saída, parâmetros, motor | F0033 / OPF, tnF / – | Corrente nas três fases de saída |
Cinco verificações antes de desinstalar
1. Leia e fotografe o histórico de falhas na IHM antes de qualquer reset; a sequência vale mais que o último código. 2. Meça a entrada: três fases, sob carga, e o aperto dos bornes. 3. Isole o motor: partida com U, V, W desconectados para os sintomas 2, 7 e 10; megômetro no motor e no cabo. 4. Confira ventilação e temperatura: ventilador girando, filtro limpo, dissipador sem poeira. 5. Confira o comando: 24 V do painel, bornes de habilitação, IHM e cabo. Quem faz as cinco em meia hora evita dois erros caros: enviar um inversor bom para bancada e, pior, deixar um motor em curto esperando o inversor reparado voltar para queimá-lo de novo. Se o teste apontou defeito interno, não insista com resets: desinstale fotografando as conexões e embale conforme o guia de envio. O orçamento sai com fotos dos componentes e a provável causa, e a faixa de valores por tipo de defeito está no guia de custo de reparo. Para decidir entre reparar e trocar um inversor antigo, veja reparo ou troca e inversor fora de linha tem conserto?.
Dúvidas frequentes
Como saber se o defeito é do inversor ou do motor?
Desconecte os cabos do motor na saída U, V, W, dê um comando de partida com referência baixa e observe. Se o inversor roda sem erro com a saída vazia e desarma só com o motor ligado, o problema está no motor, no cabo ou na carga mecânica: meça a isolação com megômetro e a resistência entre fases. Se o inversor desarma por sobrecorrente, curto ou falta à terra mesmo com a saída desconectada, o defeito é interno (módulo de potência, driver ou sensores de corrente) e o teste de campo acaba aí.
Posso resetar a falha e continuar operando?
Uma vez, para ler o código e observar se repete, sim. Repetir o reset várias vezes com sobrecorrente, curto ou falta à terra é a forma mais rápida de transformar um reparo de driver em um reparo de módulo de potência e placa. Falhas de rede (subtensão por queda de energia, sobretensão por rede alta) podem ser resetadas depois de a rede normalizar.
Qual sintoma indica que o reparo vai ser caro?
Sobrecorrente ou curto que persiste com o motor desconectado, cheiro de queimado, fuligem e disjuntor de força desarmando ao energizar apontam para o estágio de potência, que é o reparo de maior custo. Mesmo assim costuma ficar bem abaixo do preço de um inversor novo acima de 5 cv. Display apagado, superaquecimento, subtensão e falhas intermitentes costumam ser reparos de fonte, ventilador, capacitores ou conexões, na faixa mais baixa.
Os códigos citados valem para outras marcas?
Os sintomas e os blocos valem para qualquer inversor; os códigos não. CFW500, Altivar 312 e Micromaster 440 foram usados como exemplos porque são comuns no Brasil e têm manuais públicos. Para WEG CFW11, Siemens G120, ABB, Danfoss, Yaskawa e outros, consulte o guia de códigos por marca ou a página do modelo neste blog antes de concluir.
O que enviar junto com o inversor para o reparo?
Modelo e número de série, o código de falha e o histórico de falhas da IHM (a maioria guarda as últimas), o que aconteceu antes (tempestade, troca de motor, limpeza do painel, queda de energia), fotos dos bornes antes de soltar e, se possível, o backup de parâmetros. Com o inversor fora da máquina, embale conforme o guia de envio para não chegar com dano de transporte.