Inversores solares
Inversor solar queimou com raio ou surto: como confirmar, o que verificar no DPS e nas strings antes de religar, o que queima por dentro, se tem conserto e o que a seguradora pede
Toda temporada de chuva traz a mesma mensagem: "choveu forte ontem, hoje o inversor está morto". Surto é a causa mais comum de inversor solar fora da garantia que chega ao laboratório, e também a mais mal diagnosticada, porque o raio raramente cai no telhado: ele entra pela rede da rua, pelo cabo de dados ou pelo aterramento ruim, e o que ele queima tem um padrão. Este guia mostra como confirmar que foi surto, o que verificar com segurança antes de religar, o que normalmente queima por dentro, quando tem conserto e o que juntar para a seguradora.

Foi surto? Os sinais
Nenhum sinal sozinho confirma; o conjunto confirma. Coincidência temporal: o inversor parou na tarde ou noite da tempestade, e o aplicativo de monitoramento mostra a geração caindo a zero de uma vez, não um declínio. Vítimas em grupo: roteador, portão automático, placa do ar-condicionado, fonte da TV ou o medidor da distribuidora falharam junto; surto pela rede raramente escolhe um aparelho só. DPS sinalizado: a janela do dispositivo de proteção contra surtos no quadro CA ou na string box ficou vermelha, ou o módulo está estufado, trincado ou com o fusível rompido. Marcas físicas: cheiro de queimado no inversor, pontos escuros nos bornes CA, conector CC derretido, trilha de carbono na string box. Disjuntor desarmado ou DR que não rearma. Inversor que parou em semana seca, sozinho, com DPS íntegro e sem cheiro, provavelmente tem outra causa, e os guias por marca deste blog separam o que é rede do que é o inversor.
O que não fazer
Não religue repetidamente. A tentação é "desliga e liga de novo", e o primeiro religamento é aceitável depois de verificar o DPS e os disjuntores; o quinto, não. Cada tentativa com um varistor em curto ou um MOSFET danificado alimenta o defeito, aquece a placa e transforma um reparo de fonte em um reparo de estágio de potência. Não troque o DPS por um disjuntor comum "para passar": o DPS é consumível e protege o inversor, o disjuntor não. Não abra o inversor em campo para "ver se tem algo queimado": os capacitores do barramento seguem carregados por minutos após o desligamento, e a abertura por não autorizado é a exclusão mais comum de garantia e de seguro. Não jogue fora o DPS estourado nem limpe as marcas: são evidência para a seguradora.
Por onde o surto entra
A descarga direta no telhado é rara. O comum é a descarga próxima induzindo sobretensão na rede de distribuição, que entra pelo cabo CA do inversor; é a porta de entrada da maioria dos casos que chegam ao laboratório, e explica por que o relé de saída e o filtro CA são as primeiras vítimas. A segunda porta é o lado CC: os cabos das strings formam uma antena de dezenas de metros no telhado, e um raio na vizinhança induz tensão suficiente para furar a isolação de um conector ou disparar o DPS CC. A terceira, subestimada, é o cabo de dados: RS485 do medidor de consumo, Ethernet do roteador, cabo do sensor de corrente (CT). Um surto que entra pela rede elétrica do roteador sai pelo cabo Ethernet direto na placa de comunicação do inversor, e é a razão de tantos inversores "funcionando mas sem Wi-Fi" depois da chuva. A quarta é o aterramento: com o inversor aterrado em um ponto e o quadro em outro, a diferença de potencial durante a descarga passa pelo inversor. Sistema de aterramento único e equipotencializado é a defesa mais barata que existe.
Roteiro de verificação antes de religar
Na ordem, com o inversor desligado (CA e CC) e luvas isolantes. 1. DPS CA no quadro: janela indicadora, estado físico, fusível ou disjuntor de proteção do DPS. Sinalizado, trocar antes de qualquer teste. 2. DPS CC na string box ou no inversor (vários modelos têm DPS CC interno, visível pela tampa inferior): mesmo critério. 3. Disjuntores e DR: rearmar uma vez; desarmou de novo, pare. 4. Tensão da rede nos bornes CA, fase-neutro e fase-terra: a distribuidora pode ter ficado com fase caída ou neutro aberto após a tempestade, e o inversor "morto" só está sem rede. 5. Strings: medir o Voc de cada string com o seccionador CC aberto; string com zero ou metade da tensão tem módulo, diodo de bypass ou conector queimado; medir resistência de isolamento se o inversor acusar erro de isolamento ao religar, pelo roteiro do guia de isolamento. 6. Inspeção visual dos conectores MC4, da string box e dos bornes do inversor. 7. Religar uma vez: CA primeiro, depois CC, e observar: display apagado com CC presente, partida seguida de desligamento, "sem rede" com rede correta ou disjuntor desarmando são os quatro sintomas que encerram o teste e mandam o inversor para a bancada.
O DPS: ler, trocar, não ignorar
O DPS é um varistor em uma caixa: ele absorve o surto desviando a energia para a terra e, a cada evento, perde parte da vida. A janela verde vira vermelha quando o desconectador térmico interno abre o módulo gasto; a partir daí, o inversor está sem proteção, mesmo com o DPS no lugar. Depois de toda tempestade com desligamento, olhe o DPS; depois de todo surto confirmado, troque, mesmo que a janela ainda esteja verde, porque o desconectador só age no fim da vida e não mede o desgaste intermediário. A instalação correta exige DPS tipo II no quadro CA do inversor (classe I na entrada do prédio em região de alta incidência), DPS CC específico para fotovoltaica na string box ou no inversor, e DPS para linhas de dados quando há cabo entre o inversor e um roteador, medidor ou CT. Um DPS CA de prateleira não serve no lado CC: a tensão de operação e a característica são outras.
O que queima por dentro, em ordem
O surto tem um caminho dentro do inversor, e o dano segue esse caminho na ordem. A bancada vê, de longe, quase sempre a mesma sequência:
| Ordem | Componente | Função | Sintoma | Reparo |
|---|---|---|---|---|
| 1 | Varistores e fusíveis do filtro CA (ou CC) | Primeira barreira; absorvem e, em curto, "sacrificam-se" | Disjuntor desarma ao ligar; cheiro; varistor estufado | Troca; barato |
| 2 | Relé de saída | Conecta e desconecta o inversor da rede | "Sem rede" ou falha de relé com rede correta nos bornes; estalo e desliga | Troca; barato |
| 3 | Fonte auxiliar | Alimenta controle, display e comunicação a partir do barramento | Display apagado com CC presente; LEDs apagados | Reparo na própria placa; médio-baixo |
| 4 | Placa de comunicação, Wi-Fi, RS485, porta do CT | Monitoramento e medidor | Inversor gera, mas offline; medidor não lê | Troca de transceptor ou da placa; baixo a médio |
| 5 | Sensores de corrente e de tensão | Medição para o controle | Erro de corrente CC, OV-G-V com rede normal, leituras absurdas | Troca; médio |
| 6 | Estágio boost e ponte inversora (MOSFETs, IGBTs, drivers) | Conversão de potência | Partida e desligamento; curto no barramento; dano visível | Reparo; médio-alto, depende do colateral |
| 7 | Placa de controle (DSP) e trilhas | Cérebro | Inversor morto com fonte boa; comportamento errático | Reparo caso a caso; alto |
A ordem explica a regra do religamento: um inversor que parou no item 1 ou 2 e é religado cinco vezes com o varistor em curto pode chegar ao item 6. E explica o diagnóstico: o surto que entrou pela rede CA para nos itens 1 a 3 na maioria dos casos; o que entrou pelo cabo de dados ataca o item 4 e poupa o resto; o que entrou pelo lado CC passa pelo boost (item 6) primeiro.
Sintomas típicos de inversor pós-surto
Display ou LEDs apagados com tensão CC nos bornes: fonte auxiliar, pelo roteiro de display apagado. Liga, mostra "sem rede" ou falha de relé, com rede correta medida: relé de saída ou medição CA; aparece como NO-GRID, Grid Loss, State 102 a 107, E024 ou Utility Loss conforme a marca. Gera, mas sumiu do aplicativo: placa de comunicação, especialmente quando o roteador também queimou. Disjuntor desarma ao ligar o CA: varistor em curto no filtro de entrada ou ponte com MOSFET em curto. Erro de isolamento ou de corrente de fuga logo após a chuva: pode ser água no conector, mas depois de surto o sensor de corrente residual e o circuito de medição entram na lista. Partida seguida de desligamento, às vezes com estalo: estágio de potência ou barramento. Leituras de tensão ou corrente absurdas: sensores. Anote o sintoma e o alarme exato: eles direcionam o diagnóstico e entram no laudo.
Tem conserto?
Na maioria dos casos, sim, e o motivo está na tabela: o surto gasta sua energia nos primeiros itens do caminho, que são os mais baratos de reparar. Varistores, fusíveis, relé, fonte auxiliar e placa de comunicação são reparados na própria placa, com peças de reposição comuns, e o inversor volta com os mesmos projeto, homologação e monitoramento. O reparo deixa de compensar quando o surto atravessou tudo: estágio de potência, barramento e controle danificados ao mesmo tempo, ou placa carbonizada com trilhas destruídas, cenário de descarga muito próxima ou de inversor religado muitas vezes. O guia de reparar ou trocar traz a regra dos 40% e as quatro perguntas para esse caso. No laboratório, o inversor pós-surto passa por inspeção visual, teste da fonte auxiliar, teste dos semicondutores de potência fora do circuito, verificação dos sensores e, depois do reparo, validação com simulador fotovoltaico e rede real. O orçamento sai após o diagnóstico, com fotos dos componentes danificados, que servem também para o laudo.
Seguro: o que juntar
Apólices residenciais e empresariais com cobertura de danos elétricos costumam cobrir equipamentos danificados por descarga atmosférica e por oscilação de energia; algumas seguradoras oferecem cobertura específica para sistema fotovoltaico, e a cobertura básica de raio geralmente exige dano visível pela descarga direta. Leia a apólice ou pergunte ao corretor qual cobertura se aplica antes de abrir o sinistro, porque o enquadramento muda a franquia. O que a seguradora pede, em geral: laudo técnico de assistência ou laboratório identificando o equipamento, o dano e a causa provável (surto por descarga atmosférica ou oscilação de rede), com fotos dos componentes; orçamento de reparo ou de substituição; nota fiscal do inversor e do sistema; número de série e modelo; data e hora do evento, com o registro do aplicativo de monitoramento mostrando a geração caindo a zero; e, quando disponível, o registro meteorológico do dia (boletins de tempestade e registros públicos de descargas atmosféricas na região). O DPS estourado e as fotos dos bornes são evidência: guarde. O laudo da Fixtron sai com o diagnóstico, com as fotos e a lista de componentes, e atende ao que as seguradoras costumam exigir; a cobertura em si depende da apólice, e isso quem responde é a seguradora.
Prevenção que funciona
Nenhuma proteção zera o risco, mas quatro medidas tiram o inversor da lista de vítimas na maioria dos eventos. DPS em todas as portas: tipo II no CA do inversor, DPS CC fotovoltaico nas strings, DPS de dados no RS485, no Ethernet e no cabo do CT. Aterramento único e equipotencialização: estrutura dos módulos, carcaça do inversor, string box e quadro no mesmo sistema de aterramento, sem "terra separado" para o solar. Troca do DPS após evento e inspeção da janela a cada tempestade forte; DPS é consumível. Roteamento dos cabos CC sem laços grandes no telhado (positivo e negativo juntos, sem formar antena), e comprimento mínimo do cabo de dados. Para quem está em região de alta densidade de descargas, o projeto de SPDA do prédio e a coordenação com o DPS classe I na entrada são assunto para o projetista; o inversor agradece.
Segurança
Depois de tempestade, trate a instalação como de estado desconhecido: cabo CA pode estar com neutro aberto e tensão fase-terra elevada; conector CC danificado pode ter arco ao ser movido; string box molhada pode estar energizada na carcaça se o aterramento foi comprometido. Desligue CA e CC antes de qualquer inspeção, use luvas isolantes, meça antes de tocar e não abra o inversor em campo. Com cheiro de queimado persistente ou fumaça, mantenha o CC desligado (as strings continuam gerando com luz) e chame um profissional habilitado.
Dúvidas frequentes
Como saber se o inversor solar queimou por causa de raio?
Pelos sinais em conjunto: o inversor parou na mesma noite ou tarde da tempestade, outros equipamentos da casa ou da empresa falharam junto (roteador, portão, placa de ar-condicionado), o DPS do quadro mostra a janela vermelha ou está estourado, há cheiro de queimado ou marcas escuras nos bornes, e o disjuntor pode ter desarmado. Um inversor que parou em dia seco, sem outros equipamentos afetados e com DPS íntegro, provavelmente tem outra causa.
Posso religar o inversor depois da tempestade?
Uma vez, com cuidado, depois de verificar o DPS e os disjuntores. Se o DPS está sinalizado como fim de vida, troque antes. Se ao religar o disjuntor desarma, há cheiro de queimado ou o inversor dá partida e morre, não insista: cada tentativa alimenta um curto interno e aumenta o dano. Desligue CA e CC e acione o reparo.
Inversor solar queimado por surto tem conserto?
Na maioria dos casos, sim. O surto costuma parar nos varistores e fusíveis do filtro de entrada, na fonte auxiliar, no relé de saída e na placa de comunicação, todos reparáveis na própria placa. Só quando o surto atravessa até o estágio de potência e a placa de controle, com trilhas destruídas, a troca passa a ser a melhor saída, e isso o diagnóstico mostra antes do orçamento.
O seguro residencial cobre inversor solar queimado por raio?
Depende da apólice: a cobertura de danos elétricos, quando contratada, costuma cobrir equipamentos danificados por descarga atmosférica e oscilação de energia, e algumas apólices têm cobertura específica para sistemas fotovoltaicos. A seguradora pede laudo técnico com a causa, fotos do dano, número de série, nota fiscal do equipamento, data e hora do evento e orçamento de reparo ou substituição. O laboratório emite o laudo após o diagnóstico.
A garantia do fabricante cobre dano por raio?
Em regra, não: surto e descarga atmosférica estão entre as exclusões padrão das garantias de inversor. Por isso o caminho para inversor pós-surto costuma ser o seguro, quando há cobertura, ou o reparo em laboratório.